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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Do outro lado da rua


Vim aqui fazer uma reforma literária, meu amor. De agora em diante, retiro todas as calúnias. Não quero mais falar das tuas mentiras e maus-tratos. Te olhando de longe, você até que parece inofensivo outra vez.
Só parece, é claro. Ah, esse teu sorriso de lado! Quantas noites já perdi por te olhar demais? Sinto-me novamente vulnerável quando penso na maldita noite em que me apaixonei por você. Olhando pra trás – cansada demais de me remoer, pra falar a verdade – vejo que foi fácil demais amar você.
E todas as vezes que vi sua fragilidade disfarçada de pedra justificam a maneira com a qual você resolveu sair de mansinho. É o que acontece quando a gente desmascara um playboyzinho: um contra-ataque. Não funciona, cara, comigo não. Ouvi a todas as falácias com um sorriso pregado no rosto. Poderia ter mostrado pra todo mundo que você é só um garoto que chora.
Até sinto uma pontinha de vontade de largar você de novo. Partir seu coração da mesma maneira que me pôs no chão, quem sabe? Só que tô cansada demais da carinha que você faz quando chora. Por favor, né? Que coisa antiga.
Você até que tá bonitinho. Barba por fazer, tênis caro e moto nova. É suficiente pra alguém como você, né? Suficiente pra fazer com que elas se aproximem, assim você pode ser superficial e traíra mais um milhão de vezes.
Pois diga a elas que comigo você foi real. Diga que sou a primeira e única. A única que passou a mão na sua cabeça e gritou com você de uma maneira que nem sua mãe foi capaz, rapaz. Não diga que não foi amor, pois seu prazer por vingança tem gostinho de dor de cotovelo.
Você me partiu ao meio, eu sei. Melhor pra mim então. Se a dor precisa ser sentida, então aqui estou eu. Olhando pra você do outro lado da rua. Ainda me olha de cabeça baixa quando ninguém tá vendo. Sorrio e aceno. Sou indestrutível – por culpa sua. Obrigada. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Prólogo


O nome dele piscou na tela do celular pela milésima vez naquele dia. Ela entrou no carro, jogou as coisas no banco de trás e se olhou nos olhos pelo espelho retrovisor. Não tinha certeza do que fazia e pensou em desistir milhares de vezes. A roupa não estava boa, a franja não obedecia e o estômago estava infestado de pragas barulhentas mais conhecidas como borboletas.
Ela desceu do carro e o olhou com o seu melhor sorriso, como quem tem todos os motivos do mundo pra não acreditar no amor e ainda assim se vê sem chance na luta contra o sentimento. Ela adorava a maneira como ele ria e falava da vida, como quem pensa muito e não tem papas na língua. A teimosia dele sempre batia de frente com a dela, o que, na opinião dele, fazia com que ela ficasse maravilhosamente irritada.
Era incrível como ele preenchia direitinho a sua solidão, como se eles dormissem de conchinha dentro do coração amargo dela. Ela era complicada demais: aquele tipo de gente que sente e vê muito, mas fica calada. E foi nesse clima de poema e música que a coragem absurda dele passou a viver juntinho dos medos dela.
Naquela noite, ela não dormiu - como nos velhos tempos. Fez uma prece em nome daquele amor no qual ela insistia em não acreditar. Pediu pra não perder a razão, nem sair com o coração esburacado. Pediu pra que lhe dessem todas as ferramentas pra fazer aquele menino feliz – e pediu para que ele desejasse o mesmo. Então foi assim o começo de tudo: confuso, na opinião dela. Tanto faz porque era assim que ela mais gostava.
Bastava se tivesse ele ali do ladinho, fazendo com que ela sorrisse sempre e se sentisse incrivelmente viva. Havia muita coisa a ser dita: um universo inteiro dentro dela, cheio de segredos, impressões, feridas e sentimentos que pouca gente entendia. Já ele funcionava sem muita engenhosidade, era objetivo e desligado: um garoto que queria muito ser encontrado.
Ela ia se revelando aos pouquinhos e ele fazia com que tudo parecesse menos complicado. Era como se ele dissesse, entre gargalhadas e cirandas: “Chega de dor, menina, vem brincar de ser feliz!”. Entre rosas, sonhos, prólogos e noites mal dormidas, sobrevivia dia após dia aquela relação.
Todos os dias eles pensam que, ao contrário das outras relações conflituosas, aquela ali era prazerosa demais. Amor na medida exata, coisa e tal. Ele era o ponto de paz dela e ele, seu abrigo.
E tudo termina, é claro, com as cores do pôr do sol e o silêncio daquela rua, que abriga silenciosamente um casal atento ao espetáculo da vida no fim do dia. Dentro de um quarto vazio, por causa dos sentimentos que dormem tranquilos dentro do peito, adormeciam devagarinho. Os batimentos cardíacos dela, o perfume dele, os pássaros cantando lá fora e a luz desaparecendo atrás da persiana, incitando a presença de anjos embriagados de amor e cuidado. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A-M-O-R


Sabe quando você simplesmente se sente em paz? Ou então quando você sente que, mesmo se estivesse entre 30 mil pessoas, qualquer um te acharia, só por causa da felicidade que está exalando de você? E quando você dança no ritmo da música, pulando as linhas do ladrilho da calçada, mas o seu fone nem está ligado? Pois é. Você me deixa assim.
Você deixa meu sorriso bonito, me traz um brilho que o Homem nunca seria capaz de encontrar em alguma estrela. Meu dia passa de cinza a azul quando você chega de repente e me beija. A partir daí, meu sorriso toma vida própria e meu coração bate tão forte, que tenho quase certeza de que você o escuta. Me enche de vida, de paz, de segurança e, num segundo, sou capaz de fazer qualquer coisa. Eu conquisto a paz mundial, acabo com a fome e reinvento a Terra, só por causa do seu amor.
Eu sei, devo estar parecendo uma boba fazendo tudo errado e tropeçando por aí com um sorriso idiota na cara. É quase como se eu tivesse seu nome tatuado na minha testa. Deixe para lá todos os planejamentos, desmarque todos os seus compromissos, que hoje eu quero você só pra mim. Quero sua voz só pra mim. Quero sentir seu cheiro bem de pertinho, entrelaçar nossas mãos e te fazer dormir. Nada mal, meu amor. É que você me faz querer fugir da realidade, largar as formalidades e ser criança por aí. Adoro quando você simplesmente assume o controle dos nossos pés, me mostrando músicas, trechos e histórias. Você me transborda.
Não vou agradecer, nem me despedir, simplesmente porque não quero que fechem as cortinas pra nós dois. Só gostaria de dizer que eu gosto demais de você, menino. Espero que cuide bem disso e tal. Ficaria feliz se cuidasse para que não seja breve, pois jamais sorri tanto em muitos anos ou escrevi palavras tão felizes que quase vêm perfumadas para o papel. Que truque bonito é esse, menino, que me fez acreditar nos sonhos outra vez?

domingo, 28 de setembro de 2014

Caleidoscópio


Hoje o dia me deixou muito brava. O destino foi meio cruel comigo quando fez com que você não se lembrasse deste dia. Quinta-feira, cara, quinta-feira. Há exatamente um ano atrás, eu conheci você.
Maldita é a pessoa que te deu um “oi” e fez com que você olhasse na minha direção só por eu estar na roda. Maldito foi aquele beijo no rosto, que ficou latejando por segundos que até hoje não esqueci. Maldito foi aquele evento na cidade, que fez com que a gente se encontrasse de novo.
Eu me lembro de você lá. A mão direita com a cerveja e a esquerda se movendo pra lá e pra cá, enquanto você conversava animadamente com duas meninas. Eu sorri tímida, quando te vi. Nunca cogitei a possibilidade de gostar de você, eu juro. Eu só achava uma gracinha quando você sorria daquele jeitinho cafajeste e tentava me fazer pensar que só eu te interessava naquela noite.
Então a noite passou. 5 horas que se passaram num estalar de dedos. Bastou só um olhar, um convite. Eu segurei suas mãos ás 23:15. Eu aceitei cair na palheta de cores dos teus olhos, deixei que sentisse o calor das minhas costas e sorrisse perto do meu queixo. Eu juro, meu bem, nada foi mais lindo. Nem a Lua, nem o céu estrelado, nem o laranja do entardecer. Aquele beijo ficou tatuado e, por Deus, como eu gostaria de remover.
Você trouxe a paz do adormecer e a serenidade do despertar na manhã do domingo. Acreditei que ter você bastaria. Gosto de me lembrar até hoje de como você tinha algo que não me deixava ficar longe. Eu te queria perto, sinceramente, bem aconchegado. Eu reconstruí meus sonhos e desfiz meus planos, até refiz meus passos pra chegar até você. Te queria por todo canto e até trilhas do seu beijo cheio de sorrisos em mim.
Eu tô aqui hoje, naquele maldito ponto da cidade onde tudo começou. A saudade lateja em mim quando fecho os olhos e quase sinto você aqui, sua respiração quente em minhas bochechas. Meu coração se contrai e se parte em milhões de pedacinhos quando penso que talvez você nem se lembre. Nem as estrelas apareceram, querido. O dia foi triste e até o reflexo da Lua chorou de saudade.
Eu queria tanto te contar dessa saudade. Discar seu número pra dizer que essa distância me faz chorar. Quero aparecer na sua porta feito louca, chorando delineador e sofrimento, só pra beijar sua testa e comemorar o primeiro ano sem você pedindo pra ficar só mais uma vez. Só mais uma noite sem insônia, por favor. Deixa meu coração bater tranquilo só por ter você. Eu nem ligo pro que vai parecer. Só me salva da loucura que é não te ter.
Diz que lembrou, pelo menos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sonhos de porcelana


É difícil alguém me tirar do sério e mais difícil ainda é me tirar da cama às 4 da manhã. Você assombrou todos os meus sonhos, então pego meu bloquinho pra falar de amor.
Tento não falar muito pra não espalhar pedaços seus por aí. Te transformei num segredo e o escondo até de mim. Nem tento descrever o que sinto, pois cuidei para que fosse indecifrável. Não quero meia dúzia de palavras de significados vazios pra falar do brilho dos meus olhos e o suor na palma das tuas mãos. Só sei que me peguei procurando a Lua e o seu perfume entre um sonho e outro.
Espero que saiba guardar segredo, menino. Pense em meus MPB's e ria das minhas besteiras sozinho no quarto. Conte apenas para si mesmo sobre as vezes que pescou meus olhares bandidos e sobre a minha voz que sempre falha quando você chega perto demais. 
Tô com saudade daquele beijo na bochecha e do seu romantismo. Clichê demais, mas gostaria de permitir que me leve por aí, me mostrando os traumas e prazeres do teu mundo. Só que eu tenho medo de você, confesso. Medo desse teu olhar de criança, que se esconde na firmeza da tua postura. O que eu estou fazendo? Esse riso frouxo e essa espera interminável são sintomas de você?
Seja cauteloso, meu pequeno grande homem. Posso te assustar com a minha intensidade. Não me provoque. Seu blazer de camurça e essa carinha refinada não enganam, não. Me leve pra dançar em seu castelo em troca de uma dama feita de porcelana e completamente dissimulada.
Vai, me desvenda! Só não machuque, por favor. Sou mansa, mas meu grito de dor ecoaria em cada entranha do seu ser. É que eu sou assim mesmo, meio danificada pelo tempo. Vivo tendo espasmos de amores meio amados. Não me venha falar das rosas, ao menos que as tuas já estejam sem espinhos. 
Meu amor, aceita um café? Com ou sem açúcar?

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Propaganda enganosa


Tá aí a coisa toda: Sinto-me sozinha. É uma boa maneira de começar, já que tentei arrancar algo de mim e as únicas coisas que consigo são confusas. O problema é: por qual motivo?
Eu costumava ser tão forte e ter os conselhos na ponta da língua. Mesmo com todas as minhas inseguranças, eu tinha muita certeza do que eu dizia, mesmo quando, tempos depois, percebia que estava errada. Agora não consigo nem mesmo levantar da cama ou me olhar no espelho. Se a vida tivesse uma espécie de “pause”, tenho certeza de que eu deixaria neste modo na maior parte do tempo.
Eu tô cercada de tudo o que alguém gostaria de ter e agradeço muito por isso. “Não tenho tudo o que quero, mas amo tudo o que tenho”, já ouviu essa? Pois é. Só que falta algo. Aquela sensação que sempre bate desde quando eu me entendo por gente: Vontade de algo que eu não sei o quê.
Já sei! Falta a fé. Fé em mim, fé na vida, fé que vai dar certo. É tudo mecânico demais: acordar e vestir o meu melhor sorriso até a próxima oportunidade de me fechar dentro do meu quarto. Eu sei, é babaquice demais. Já decorei livros de autoajuda e os meus próprios conselhos, mas ainda não sei o que é melhor pra mim.
Eu era uma criança até ontem. Sinto falta dessa época em que eu simplesmente acreditava. Acreditava em romances, atitudes, olhares, juras de amor, sorrisos. Tive que cair umas dez mil vezes pra aprender que, na maioria das vezes, sorrisos são maldosos. Hoje falo de um amor que nunca vi acontecer e, quando eu tô sozinha, é nele que eu gosto de pensar. Oi, Hollywood, só passando pra dizer que você faz com que eu me sinta mais solitária ainda.
Acho que o mundo lá fora é grande demais. Tô trancada nesse quarto, decorando a vida dos outros no Facebook, mas cheia de vontades por dentro. Se eu te mostrasse a pilha de sonhos! Tá normal demais, entende? Apenas mais do mesmo: Amar, amar, amar e acabar sozinha numa sexta-feira à noite, pensando no quanto o amor é uma burrice. Sonhar, sonhar, sonhar e não poder realizar. A vida passando bem debaixo do meu nariz, acontecendo mais ou menos e prolongando uma lista de vontades que, originalmente, já era imensa.
Cansei, entendeu? São só palavras e suposições. Tá um gelo danado aqui dentro! Me sinto insuficiente e tal. “She will be loved” tá tocando há anos e nada. As cartas nunca chegam, os telefones não tocam, os olhares não se cruzam.  Todo mundo seguindo sua vida sem olhar para os lados. A vida não para. Sei que preciso levantar, mas deixa pra depois. Cadê o tal do amor do qual tanto se fala? Todos os sonhos são utopias? E a liberdade é só propaganda enganosa de empresa telefônica?