Páginas

sábado, 21 de março de 2015

Efêmero


Eu jurei que não seria sobre você. Em nome da minha dignidade ou do seu orgulho: nem uma palavra a mais, somente estranhos que se cruzam todo santo dia sem trocar uma palavra. Queria eu estar mentindo, mas seus olhares têm me machucado. Não sei se machucam mais ou menos que as palavras que foram ditas, mas todos os dias me alimentam com o que quero esquecer.
É que não é saudade, sabe? Nem passa perto disso. Quando olho para trás e só enxergo nossos sorrisos, sei que caí em mais uma armadilha sua. Eu quase não consigo me lembrar das vezes em que me senti completamente sozinha ao seu lado, ou de quando sonhei com tanto e você me deu tão pouco. É que quando eu te vejo com aquele maldito fone, cantarolando Freddie  Mercury e batucando na mesa, penso em como era bom abraçar você. Sinto falta daqueles arrepios.
E por algum tempo eu quase me convenço de que te esqueci. Às vezes passo dias sem lembrar, mesmo que eu me olhe no espelho e continue enxergando uma parte de você. Porém olhar para trás e listar todas as coisas boas me parece distante demais. A melhor parte da nossa existência foi dentro de mim. Eu só queria que você visse o mesmo que eu vi.
Ninguém me disse que amar é brincar de cabo de guerra. Ninguém me disse que você soltaria a corda. Quando você estava ali, ao meu lado, aqueles segundos pareciam ser infinitos. E a cada vez que nos machucamos perdemos uma parte de nós. Eu já nem sei quem sou. Tem você em cada canto da cidade e o que existia antes disso foi levado.
Não era pra ser sobre você, mas minhas inspirações são falhas. Amando ou odiando, seu jeito desengonçado ainda me enche de vida. A gente segue torto, dando um jeito, engolindo o choro, mas segue. Queria eu me convencer da sua inocência, dessa tal juventude. Meu coração envelheceu 10 anos em poucos meses, mas seu sorriso se revigora a cada dia mais.
Não é saudade, é fascínio. Vontade de te olhar nos olhos até que você enxergue a minha alma. Te dou a chave do cômodo escuro e vazio em que uma garota se encolhe e chora. Aos prantos, ela diz: “Você realmente me magoou muito”. Mesmo sabendo que a força dessas palavras não é tão imensa quanto o que eu sinto. E no fim você vai embora. Você sempre vai embora.

domingo, 8 de março de 2015

Azul


Quando eu te vi pela primeira vez, me senti novamente a menina de um ano e meio que fugia do berço durante a madrugada. Tive vontade de afastar a franja que caia em seus olhos. Era simplesmente o cabelo mais preto e mais lindo que eu já havia visto em toda a minha vida. Tudo em você era convidativo, como se sua camisa dos Beatles desencadeasse em mim uma vontade imensa de querer saber tudo a seu respeito.
Eu também me lembro da primeira vez que me viu. Não posso dizer como se sentiu, mas você odiou a minha risada. Ou, em nome do seu ego, tenha mentido a respeito disso. Acho que vou ficar com a segunda opção, já que no instante seguinte batemos um papo inacabável sobre sei lá o quê, enquanto você tentava – sem sucesso – não esquecer seus olhos nos meus.
Eu era um pedaço de nada. Não queria estar no passado, meu presente me enojava e o futuro, bem, meu futuro me assustava. Escrevi e lutei contra você no começo, mas me esqueci de que o amor não pede licença. E nem você.
O fato é que o amor é um oceano. Você simplesmente naufraga. Alguns acham maravilhoso, sabe? O fato de estar ali afundando, afundando, afundando. Eu não queria isso, nunca quis.
Houve um momento. O momento em que seus dedos discaram meu número e eu - com o coração em chamas - atendi. O momento em que você pegou a minha mão e pediu, como uma criança pede por um doce, para que eu arrumasse o seu cabelo. O momento em que eu disse “sim”.
Eu disse sim porque você trazia o céu ao meu inferno. Você enchia meu coração de luz. Aquele sorriso curava o meu caos.
Eu queria saber sobre os seus medos, seus sonhos, suas loucuras, seus segredos. Fui, por muito tempo, simplesmente curiosa. Decorando as curvas do seu corpo, a cor dos seus olhos no sol, o seu humor matinal. Acho que é amor quando, por mais que você lute contra, cada parte de você insiste em dizer “por favor, sim”.
O que dizer sobre nós? Complicado, talvez. Várias vezes perdi a paciência com a sua inconstância e suas ideias abstratas. Já você, quando pensava melhor, sempre percebia que eu não era exatamente o seu modelo perfeito de mulher. As pessoas também não suportavam muito nosso romantismo barato. O importante, querido, é que nada disso importava pra nós dois. O que ficava registrado no fim do dia eram sentimentos enormes sobre seus beijos em minha testa e sua mania de me fazer parecer completamente boba e feliz.
Nem sei ao certo como lembrar sem desejar outra vez. Por vezes tento nem fazê-lo. Melhor optar pela tentativa falha de fazer de conta que nada existiu, pois você bagunçava – e ainda bagunça – tudo dentro de mim.
Você se lembra da sensação de estar numa montanha-russa? Lembra-se de que não importa se estamos no topo ou no subterrâneo, mas o quanto isso te faz perder o fôlego?
Espero que tenha entendido essa coisa sobre você, oceanos, amores e montanhas-russas, porque a parte crucial é que... Houve um momento. Um fabuloso segundo, um pequeno – ou enorme – espaço de tempo em que você não optou por nós. Não mais. Talvez tenha sido meu desgosto por rosas vermelhas e tênis cor-de-rosa, ou meu sarcasmo somado ao meu vício em tristeza que tenham te enojado.
Não sei, e não me pergunto mais. Seus olhos azuis de covardia. Não vou me fazer de coitada.
É só que... Espere, deixe-me formular de uma maneira que pareça menos melodramática. É só que você desistiu de mim. Como alguém que abandona sua margarida recém-colhida ou deixa esfriar seu chá de camomila. Penso novamente naquela criança que fugia do berço, olhava as estrelas e, apesar de saber nadar, sempre afundava. A menina acreditava no amor e em todos os seus vértices.
O que dizer agora? Que você sente muito, que ainda me ama muito, que ainda não me esqueceu? Um punhado de porcarias. Em qual site idiota de frases feitas você procurou? E como ainda posso estar aqui? Quando me olho no espelho e paro pra pensar, quando me perguntam sobre a vida e quando rabisco, quando abro os olhos pela primeira vez no dia e em cada segundo idiota do meu tempo é isso que eu estou fazendo: remoendo, revivendo, ressentindo. Tola fui eu por me negar a mim mesma e confiar que você suportaria tudo.
Eu sempre digo que vou deixar pra lá, seguir em frente. E fazer o quê? Fingir que sou tão boa atriz quanto você? Vitória forçada e trapaceada acaba sendo mais horrível que a própria derrota.
Não é sobre você, mas sobre quem eu me tornei. Ninguém parte um coração partido. Não há decepção se não há expectativa. Que você prospere em sua vida – sem ironia! Eu realmente não me importo com o que você tem a dizer. Leve daqui a sua inconstância. Quero sentir seu perfume em forma de amor se esvaindo do meu ser. Ah! Poupe-me o drama. E, é claro, um último favor em nome da garganta e da alma: Vá se ferrar! E leve contigo seus mares rasos.

domingo, 1 de março de 2015

Minha rua


Sempre existe um momento. O tal momento em que a gente quase escuta o cordão se rompendo. As gotas de esperança escorrendo entre os dedos, o coração rezando baixinho e o vento levando seus passos pra longe da minha rua: essa é a última vez.
Memorizo seu hálito quente, as lágrimas se formando no cantinho dos olhos e o suor das mãos. Sorrio sem que você veja, só para que pense que estou brava, mas não estou, não. Deveríamos ter lutado juntos, mas, nessa guerra, fui sua vítima. Você é só um menino, um doce menino. Parece ainda mais doce quando fita os pés, quando os lábios estremecem, quando te pego olhando para o nada.
É terrível soltar suas mãos e me livrar do seu abraço quando o que eu queria mesmo era ficar ali, na curvinha do seu pescoço. Suas bochechas rosadas me fazem querer cometer o ato falho de esquecer, mas como eu poderia esquecer, menino? Decorei todos os tijolos de cada casa da cidade com o nosso amor, e depois você desfez uma a uma.
Meu coração se parte mais a cada centímetro que você anda na direção oposta. Sinto o cordão se estreitando. Seu jeito idiota de arrumar o cabelo, de falar sem pensar, de ser covarde e mentiroso. As ruas em que passamos, você no meu sofá, nossos sussurros, nossas brigas. Seu rosto sujo de molho, meu coração batendo muito forte antes de dizer “alô”. Minha desconfiança, você me falando sobre a Lua, as vezes que me tirou o ar e me entregou de bandeja as estrelas. Você. Te olhar. Confiar. Tudo sobre você e o maldito segundo em que toco o cordão e sinto seu último tom antes que ele se rompa. Nosso castelo desmorona ao som de seus discos. Nossas borboletas morrem e desabam aos meus pés. Você desenrola o fone, eu tranco a porta. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Último Romance


Nem faz tanto tempo que decidi escrever uma história sobre a gente. Fazer um romance adolescente com cada dia nosso. Falar sobre as suas pintas, suas cismas, café e suco de acerola. Contar sobre os nossos dias, seu ciúme, nosso tédio, nossos casos. Seu jeito mansinho de me procurar e me pedir carinho, de ligar no meio da tarde e falar palavrão até me fazer rir. Sei lá, queria espalhar por aí os segredos que guardamos desde o primeiro “oi”.
Agora tudo parece tão distante. Incrível como um segundo é capaz de apagar séculos de sentimento. Meu coração batia mais forte a cada curvinha que sua boca fazia só pra pronunciar nosso fim. Pensei no dia em que você me levou num café da cidade. A gente tremia e nossas bochechas queimavam de frente àquele café com Nutella. Lembrei-me da bagunça que você fazia pra comer e do frio cortante quando você disse: “Quer namorar comigo?”. Lembrei-me da história que eu nunca mais ia contar.
Corri sem nem saber pra onde. As ruas me invadiam com suas esquinas, pessoas, buzinas e choros de criança. Quis tropeçar e cair no meu travesseiro, mas eu só corria. A chuva me fez lembrar de nós dois debaixo daquele guarda-chuva velho e também do dia em que fazia muito calor e a gente morria de rir. Pensei que na última vez que corri daquele jeito foi de você, só pra você acabar ganhando e, no final, me encher de cócegas.
Cara, nós éramos o molde perfeito um do outro. Mesmo que eu odiasse sua teimosia e, você, minhas manias. Mesmo que você preferisse mulheres com pés e mãos mais bonitos e, eu, caras mais velhos. Mesmo que a gente brigasse pra escolher o canal da TV e pelo último biscoito do pacote. Você espalhou seus discos na sala, me fez gostar mais de matemática e me fez querer ficar.
Não sei onde errei, menino. Se quis muito ou pouco, se fui insuficiente. Ao contrário de todos os amores que tive na vida, com você enxerguei um futuro. Adoraria ver o sorriso enorme da sua mãe e a felicidade dos seus cachorros quando te veem. Seu diploma de engenheiro, meu vestido branco. Sua cara de sono pela manhã, suas coisas jogadas no sofá da sala. Nós dois de mãos dadas num avião, suas caretas nas fotos ao meu lado. Eu quis. Sonhei com tanta força que caí.
Você partiu meu coração. P-A-R-T-I-U com todas as letras, que é pra ver se você entende. Nosso romance foi o último e o mais belo. As flores morreram, os diamantes perderam seu brilho, os beijos já não são mais doces. Lá vem o próximo caminhão de lágrimas. Que venha a hora de me recompor, também. Já que, depois de sua atuação perfeita, perdi o brilho de menina. Fechem as cortinas, por favor.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Lantejoula


No ano passado nós saímos de madrugada pra ver as cores. Silêncio na rua, nem barulho de grilo, nem nada. Só as nossas risadas e o som de nossos pés bêbados de alegria.
Lembro-me de chegar ao desfile. Os olhos cegos de sono e paixão. Pés que sambavam num ritmo frenético e o batuque dentro do meu coração. Eu não sabia se eram os pandeiros ou o que eu sentia por você.
Mas você me guiava. Ia à frente segurando a minha mão. Olhava pra trás e sorria me mostrando a multidão. Eu quase chorei de tanta felicidade.
Ao final da passarela abriram caminho pra nós dois. Nem sei o que a gente dançava, mas era bonito. Só que sem querer fui longe demais nesse rodopio.
Nesse ano eu já nem quero mais ver as cores. Os tambores me deixam abatida. Minha fantasia está empoeirada. E eu nunca mais dancei.