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domingo, 1 de março de 2015

Minha rua


Sempre existe um momento. O tal momento em que a gente quase escuta o cordão se rompendo. As gotas de esperança escorrendo entre os dedos, o coração rezando baixinho e o vento levando seus passos pra longe da minha rua: essa é a última vez.
Memorizo seu hálito quente, as lágrimas se formando no cantinho dos olhos e o suor das mãos. Sorrio sem que você veja, só para que pense que estou brava, mas não estou, não. Deveríamos ter lutado juntos, mas, nessa guerra, fui sua vítima. Você é só um menino, um doce menino. Parece ainda mais doce quando fita os pés, quando os lábios estremecem, quando te pego olhando para o nada.
É terrível soltar suas mãos e me livrar do seu abraço quando o que eu queria mesmo era ficar ali, na curvinha do seu pescoço. Suas bochechas rosadas me fazem querer cometer o ato falho de esquecer, mas como eu poderia esquecer, menino? Decorei todos os tijolos de cada casa da cidade com o nosso amor, e depois você desfez uma a uma.
Meu coração se parte mais a cada centímetro que você anda na direção oposta. Sinto o cordão se estreitando. Seu jeito idiota de arrumar o cabelo, de falar sem pensar, de ser covarde e mentiroso. As ruas em que passamos, você no meu sofá, nossos sussurros, nossas brigas. Seu rosto sujo de molho, meu coração batendo muito forte antes de dizer “alô”. Minha desconfiança, você me falando sobre a Lua, as vezes que me tirou o ar e me entregou de bandeja as estrelas. Você. Te olhar. Confiar. Tudo sobre você e o maldito segundo em que toco o cordão e sinto seu último tom antes que ele se rompa. Nosso castelo desmorona ao som de seus discos. Nossas borboletas morrem e desabam aos meus pés. Você desenrola o fone, eu tranco a porta. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Último Romance


Nem faz tanto tempo que decidi escrever uma história sobre a gente. Fazer um romance adolescente com cada dia nosso. Falar sobre as suas pintas, suas cismas, café e suco de acerola. Contar sobre os nossos dias, seu ciúme, nosso tédio, nossos casos. Seu jeito mansinho de me procurar e me pedir carinho, de ligar no meio da tarde e falar palavrão até me fazer rir. Sei lá, queria espalhar por aí os segredos que guardamos desde o primeiro “oi”.
Agora tudo parece tão distante. Incrível como um segundo é capaz de apagar séculos de sentimento. Meu coração batia mais forte a cada curvinha que sua boca fazia só pra pronunciar nosso fim. Pensei no dia em que você me levou num café da cidade. A gente tremia e nossas bochechas queimavam de frente àquele café com Nutella. Lembrei-me da bagunça que você fazia pra comer e do frio cortante quando você disse: “Quer namorar comigo?”. Lembrei-me da história que eu nunca mais ia contar.
Corri sem nem saber pra onde. As ruas me invadiam com suas esquinas, pessoas, buzinas e choros de criança. Quis tropeçar e cair no meu travesseiro, mas eu só corria. A chuva me fez lembrar de nós dois debaixo daquele guarda-chuva velho e também do dia em que fazia muito calor e a gente morria de rir. Pensei que na última vez que corri daquele jeito foi de você, só pra você acabar ganhando e, no final, me encher de cócegas.
Cara, nós éramos o molde perfeito um do outro. Mesmo que eu odiasse sua teimosia e, você, minhas manias. Mesmo que você preferisse mulheres com pés e mãos mais bonitos e, eu, caras mais velhos. Mesmo que a gente brigasse pra escolher o canal da TV e pelo último biscoito do pacote. Você espalhou seus discos na sala, me fez gostar mais de matemática e me fez querer ficar.
Não sei onde errei, menino. Se quis muito ou pouco, se fui insuficiente. Ao contrário de todos os amores que tive na vida, com você enxerguei um futuro. Adoraria ver o sorriso enorme da sua mãe e a felicidade dos seus cachorros quando te veem. Seu diploma de engenheiro, meu vestido branco. Sua cara de sono pela manhã, suas coisas jogadas no sofá da sala. Nós dois de mãos dadas num avião, suas caretas nas fotos ao meu lado. Eu quis. Sonhei com tanta força que caí.
Você partiu meu coração. P-A-R-T-I-U com todas as letras, que é pra ver se você entende. Nosso romance foi o último e o mais belo. As flores morreram, os diamantes perderam seu brilho, os beijos já não são mais doces. Lá vem o próximo caminhão de lágrimas. Que venha a hora de me recompor, também. Já que, depois de sua atuação perfeita, perdi o brilho de menina. Fechem as cortinas, por favor.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Lantejoula


No ano passado nós saímos de madrugada pra ver as cores. Silêncio na rua, nem barulho de grilo, nem nada. Só as nossas risadas e o som de nossos pés bêbados de alegria.
Lembro-me de chegar ao desfile. Os olhos cegos de sono e paixão. Pés que sambavam num ritmo frenético e o batuque dentro do meu coração. Eu não sabia se eram os pandeiros ou o que eu sentia por você.
Mas você me guiava. Ia à frente segurando a minha mão. Olhava pra trás e sorria me mostrando a multidão. Eu quase chorei de tanta felicidade.
Ao final da passarela abriram caminho pra nós dois. Nem sei o que a gente dançava, mas era bonito. Só que sem querer fui longe demais nesse rodopio.
Nesse ano eu já nem quero mais ver as cores. Os tambores me deixam abatida. Minha fantasia está empoeirada. E eu nunca mais dancei. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Buscar


Tente ver os cristais descendo pelos céus na noite. Iluminam o chão de purpurina e sujam de lama as minhas botas. Esta noite, através da janela do carro, viam-se bares lotados com os mesmos rostos familiares de sempre. Luzes que mal piscam, pessoas que esperam ser encontradas, cadarços desamarrados.
Mal pude olhar pra dentro de mim. Mudei um século em menos de um ano e, ao mesmo tempo, sei que as minhas antigas incertezas permanecem. Eu possuo um mar delas dentro do meu peito, indo e vindo. Uma lista de coragens tatuada na medula espinhal e um medo ensurdecedor nos tímpanos.
Parei com algumas coisas. Parei com tantas coisas que hoje já não sou mais eu. Ou será que eu, na verdade, sou mesmo o agora? Deixei de me manifestar, de demonstrar aquele “algo” sempre vivo. Aquela risada estridente, palavras que ninguém vai notar. Tenho me sentido infinitamente confusa.
Ah, felicidade! Felicidade é um sentimento que sobrevive de momentos. Segundos de coragem, de levantar os braços e sentir o vento bagunçando os seus cabelos, de fechar os olhos e sentir o arrepio da música, de olhar nos olhos de alguém e deixar-se iludir pela ideia de paixão.
Passei a querer tudo e ao mesmo tempo nada. Uma hora a gente deixa de se importar com quem concorda ou não e acorda todos os dias com a intenção de fazer diferente. As expectativas descem pelo ralo e, seja do meu jeito ou não, sem estresse. Esses ataques fulminantes já não fazem a minha cara.
É que quando a gente se cala é que a gente vê. Vê que quem vive afobado atropela as chances. É tempo de sorrir, é tempo de chorar.
Mil vezes zero é zero e quem é que não cansa de ficar dando murro em ponta de faca? Não é tristeza, não. É só cansaço. É a busca incessante por uma liberdade que não se conhece e o tédio que se adquire de coisas vazias e superficiais.
Não dá mais pra pular corda, pra perder a hora, pra desligar o celular. Somos todos vítimas do nosso próprio destino. Somos todos peixes fora d’água. Não queremos compreensão, queremos ser amados.
Hoje eu só quero desligar o som pra ouvir o barulho da chuva. Deitar a cabeça no travesseiro e pensar que coisas que poderiam acontecer. Acordar antes do sol e pegar minha carona pensando em como seria se todas aquelas histórias que nos contaram fossem fatos. Histórias sobre amor, honestidade, sonhos e paz. Não se perde a fé, meu camarada, mas eu lamento. De que nos servem todas essas galáxias se quando nos sentamos frente a frente não queremos saber um do outro? Mesmo que eu ame milhares de vezes, vou acabar sozinha. Girando, girando, girando nos anéis de Saturno. Apaixonada por palavras, pessoas e símbolos. Existir é uma tragédia maravilhosa e explosiva. Seus olhos são da cor da Lua, por isso me afasto e corro, pisando em estrelas. Incapaz de ser plena. Só coadjuvante da minha própria vida.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Domingo


Mas eu precisava dessa, né? Precisava que a vida me desse outro tapa na cara, só pra tirar a doce ilusão de que você é alguém perfeito. Enquanto eu aguardava seu nome piscar na tela do meu celular, ouvindo um MPB em sua homenagem, Deus sabe lá onde você estava. Era, com certeza, muito distante da nossa realidade a dois. Eu quis socar paredes depois de encher a boca com todas as letras do seu nome e sair distribuindo-as por aí. Esperei você me procurar, até a cama esfriar, mas você não veio. Engoli todos aqueles planos babacas. Domingo à tarde: eu e você. Bufei. Bufei bem alto. Quantos anos eu tenho? E você empina esse teu nariz como se a culpa fosse minha, mas eu não posso ser culpada por estar aguardando enquanto você experimenta. Não me venha com mais desculpas. Você diz pela milésima vez que detesta mentiras, mas seus olhos me parecem muito razoáveis. Olhos frios. Como se nada houvesse dentro de você, por trás das veias que saltam do teu pescoço neste exato momento. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Janeiro


Ainda é Janeiro. Dia de esvaziar o guarda-roupa, a memória do computador e o coração. Hora de desfazer a mala e me preparar para partir outra vez. Partidas. Meu coração se contorceu dentro de mim enquanto a palavra ecoava em cada célula do meu corpo.
Eu fecho os olhos e ainda posso sentir você aqui. Aquele dia no parque a gente falava sobre os meus cachos e eu ainda me lembro de me perder naquele seu sorriso. Aquele sorriso me deixava sem chão. Quando seus olhos escapavam dos meus e suas covinhas me faziam ter vontade de carregar você no colo.
Meu coração é uma galeria de arte em que cada obra é um pedacinho da gente. Existe uma em especial, um quadro no corredor principal. Encaro face a face o seu medo de ficar. O último entrelaçar de dedos, o último “vai ficar tudo bem”. O que foi que houve entre a gente, menino? Eu te assustei? Volta! Juro que me escondo um pouquinho, que finjo que nem gosto tanto assim de você, só pra conseguir ser a sua menina.
Você se foi sem aviso prévio. “As coisas mudaram” e bateu a porta. Não sei se chorei por você ou por mim. Confere aí nessa tua mala e vê se não acha uns pedaços meus. Me ensina a dançar sem música outra vez. Me beija na chuva, me vira do avesso. Nem me lembro mais de quem sou eu quando não tenho você.