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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Seus olhares


Me escondi dentro do guarda-roupa. Fechei a porta e me enfiei lá debaixo dos casacos, onde eu não seria encontrada. Acho que tudo bem chorar por aqui.
Só pra constar, tenho sido muito boa nisso de guardar o que eu sinto. Sou dessas que só aprende na marra. Depois do milésimo erro, aqui estou eu: pensando em você e fazendo disso o meu próximo monólogo. Eu jurei para mim mesma que não seria por você.
Mas foi. Mesmo vestindo minha melhor roupa e meu melhor sorriso, ou tentando me enganar pensando que sou assim tão desapegada. Tenho tentativas meio tortas de fingir que sua presença não me incomoda, mas ela queima em cada pedaço de mim. Posso sentir seus olhares cheios de piedade e vontade. Quem sabe você não enxergue meu coração urrando a cada batida?
Chega de toda essa distância, meu amor. Vamos cabular todas as formalidades. Quem é você quando não está se passando por bom moço? Aposto que não é um cafajeste.
Eu gosto de você. Mesmo que seja só um alguém. Mesmo que me faça chorar dentro de um maldito guarda-roupa. Não me deixe assim tão solta, pois não costumo ter hora pra voltar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

As estações


Tudo na vida é a respeito do tempo. Os dias passam rápido demais, como se emendassem uns aos outros. De repente, a dor já não passa ao dormir. A dor, na verdade, se acumula com o passar dos anos. Quando a gente cresce, o tempo fica curto demais.
É tanta correria: as pessoas colocam no piloto automático. Eu mesma saio de casa correndo, não consigo administrar meu tempo e ainda durmo na metade das minhas orações. Queria tanto desacelerar o passo!
É sobre isso que penso enquanto atravesso a rua e vejo nas pessoas aqueles que amei um dia. É, sou um acúmulo de saudades. Em cada uma das vezes, me senti como um livro mal compreendido e folheado até a metade.
Somente quando você chega e mil sensações doem em mim como um murro, é quando perco a noção do tempo. Mesmo quando penso que as palavras já não saem, encontro seus olhos - que devoram meu rubor e me submergem como água. Quase sinto a ardência da água em meus olhos, invadindo meus pulmões desesperados, até que o magnetismo de nossos olhares é rompido por alguma distração. É ensurdecedor o barulho do meu corpo se chocando contra a superfície, dezenas de ondas revelando minhas borboletas mortas.
O tempo com você corre uma maratona. Seus passos são altíssimos na escada e seu olhar se segura no meu até que a porta os separa. Quando me deixo repousar sobre o lençol frio e estampado, me ocorre que o tempo passou rápido demais enquanto esteve aqui. Nesta noite estrelada, os segundos passarão como meses e vou pensar em você até que as lembranças me façam cócegas.
Não é sobre semelhanças, paixão maluca e ardente ou o seu jeito de ser. Contigo não me importo muito com conceitos de romantismo. Eu não tenho um único motivo pra gostar de você. Mesmo assim, eu gosto. A dor da espera é a mais gritante. Mesmo quando não sobrava quase nada de mim, você não me deixou partir.
Ficamos assim. Essa vontade que não passa, um desejo que não se sacia nunca. Até que o despertador da vida toque. Até que eu largue minha vida insossa e você desista de suas quase felicidades. Até que o tempo nos dê uma trégua. 5 segundos até que os lábios se decidam. Milésimos até que seu teor alcoólico me embriague.
Até que a gente largue o cinza dos prédios e a poluição da cidade. Até que a gente quebre os relógios de pulso e desligue os celulares. Até que a gente fuja para algum paraíso proibido e procure ser feliz de verdade. Até que a gente abandone essas pessoas rasas e esses amores quase nada. Até que a gente se entregue ao tempo e sinta o gostinho da vida.
Até que você me leia, umas três mil vezes, do começo ao fim. E me decifre, abrindo meu coração como se ele precisasse de uma senha. Que permaneça sem se gabar de seus truques, valorizando o tempo e ficando comigo ao deslizar das estações. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Seu perfume


O destino é muito incerto, meu amor. Sou dessas que se perguntam pelo menos uma vez ao dia: “Será que é ele?”. Por quanto tempo você vai ficar?
É defeito de fábrica, eu juro. Ontem mesmo eu jurei que não acreditava mais no amor - coisa que durou até o seu sorriso seguinte. Mesmo tentando evitar, já não consigo gritar e espernear se vou dormir todos os dias pensando em uma só coisa: eu amo você.
E você me inventa e me reinventa, quando mostra que tá sempre vendo, mesmo quando não diz. E me prova que o amor não é perder a razão, mas encontra-la. Amar você é saber que o amor é convivência. É aturar suas distâncias e festejar suas alegrias.
Portanto, que a gente se alimente de “agoras”. Amando você em cada beijo de adeus, em cada erro e em cada surpresa. O que importa mesmo, menino, é o seu perfume em minha roupa e o sorriso bobo que fica depois de me mostrar como a vida é tão mais linda quando tem você.
O resto é resto.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Flashes do seu sorriso


A janela aberta me convida a escrever quando visualizo você em minha memória. É quase como se eu pudesse fechar os olhos e sentir você aqui. Seu cheiro exala de cada centímetro desta lembrança quilométrica. Vejo você em todo mundo que passa, mesmo que nem se pareçam contigo.
A vida segue, querido, e já faz tempo desde o dia em que você se foi. Se não fossem pelos flashes que piscam em minha mente a cada vez que algo me faz pensar em você, a vida seria até normal agora. Mas é claro que ir ao cinema me faz olhar lá pra trás, procurando a gente morrendo de rir nas últimas cadeiras. Até quando ouço seu nome ou sento em meu próprio sofá. Todos os filmes, músicas, lugares, sensações e vozes me lembram de você.
Eu já não espero, se é que me entende. É gostoso ver você de vez em quando pra matar saudade das curvinhas que se formam quando sorri. Estranho dizer assim, mas esse cara aí não é o mesmo que habita as minhas memórias. Tudo bem, eu também mudei. Não culpo nada além do turbilhão que se faz quando o amor nos explode feito um campo minado.
Mesmo que eu tivesse você de volta, isto não taparia o buraco que ficou quando te perdi. Então tudo bem morrer de saudade de vez em quando. Desperta meu coração e me faz sorrir ouvir, na rádio, o que costumava ser a nossa música. Você tem um sorriso do qual eu não me esqueceria. Mesmo que doa um pouquinho, vale a pena te trazer a tona.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Do outro lado da rua


Vim aqui fazer uma reforma literária, meu amor. De agora em diante, retiro todas as calúnias. Não quero mais falar das tuas mentiras e maus-tratos. Te olhando de longe, você até que parece inofensivo outra vez.
Só parece, é claro. Ah, esse teu sorriso de lado! Quantas noites já perdi por te olhar demais? Sinto-me novamente vulnerável quando penso na maldita noite em que me apaixonei por você. Olhando pra trás – cansada demais de me remoer, pra falar a verdade – vejo que foi fácil demais amar você.
E todas as vezes que vi sua fragilidade disfarçada de pedra justificam a maneira com a qual você resolveu sair de mansinho. É o que acontece quando a gente desmascara um playboyzinho: um contra-ataque. Não funciona, cara, comigo não. Ouvi a todas as falácias com um sorriso pregado no rosto. Poderia ter mostrado pra todo mundo que você é só um garoto que chora.
Até sinto uma pontinha de vontade de largar você de novo. Partir seu coração da mesma maneira que me pôs no chão, quem sabe? Só que tô cansada demais da carinha que você faz quando chora. Por favor, né? Que coisa antiga.
Você até que tá bonitinho. Barba por fazer, tênis caro e moto nova. É suficiente pra alguém como você, né? Suficiente pra fazer com que elas se aproximem, assim você pode ser superficial e traíra mais um milhão de vezes.
Pois diga a elas que comigo você foi real. Diga que sou a primeira e única. A única que passou a mão na sua cabeça e gritou com você de uma maneira que nem sua mãe foi capaz, rapaz. Não diga que não foi amor, pois seu prazer por vingança tem gostinho de dor de cotovelo.
Você me partiu ao meio, eu sei. Melhor pra mim então. Se a dor precisa ser sentida, então aqui estou eu. Olhando pra você do outro lado da rua. Ainda me olha de cabeça baixa quando ninguém tá vendo. Sorrio e aceno. Sou indestrutível – por culpa sua. Obrigada.